Por Augusto Galvão Ferreira

Chicão era um baiano bravo e enérgico com uma perna esquerda forte e um chute certeiro, qualidades perfeitas para um jogador de futebol, mas o pobre coitado nunca passou do banco de reservas .

Ficou muito tempo cabisbaixo até que seu filho nasceu, então, virou o cara mais feliz da Bahia, falava pra quem quisesse ouvir “Meu fio vai cê o ponta de lança mais arretado do mundo”. Ele tinha tanta confiança no seu filho que o batizou de Artilheiro.

“Ôxi, Cumpadi. Artilheiro? Isso lá é nomi pra fio?”

“Claro que é cumpadi!  O cabra vai cê o artilheiro mais arretado do campeonato!”

Artilheiro mal nasceu e já tinha camisa do Bahia, da seleção, bola de futebol, chuteira, meião e até caneleira.

Mas a criança nunca gostou do esporte, chutava fraco, não gostava de contato e muito menos de suor e quanto mais seu Pai insistia mais o garoto fugia.

Na adolescência admitiu para os pais que era gay, Chicão infartou, mas antes de ir para o hospital fez questão de dizer “RUA!!! ARREDA DA MINHA CASA!!”

Pobre Artilheiro se mudou para São Paulo, foi viver com os Tios. Chicão marrento e cabeça dura passou a frequentar o bar e a garrafa de pinga diariamente.

Os anos passavam e Artilheiro não conseguia nem trocar uma palavra com o pai, sua mãe, uma santa, estava sempre tentando resolver o problema, a coitada morria de saudade do filho e insistiu para ele ir visitá-la.

“Homi o artilheiro tá vindo di Sum Paulo pra passa uns dias aqui”

Chicão fingia não escutar.

“Ta vinu ele i u namorado”

Dessa vez não teve como não escutar, levantou xingando tudo e todos e foi pro bar.

Parecia que o destino de Chicão era morrer em uma cadeira de plástico abraçado com uma garrafa de Pinga, mas ver seu filho do outro lado da rua mudou tudo. Um sorriso brotou naquela cara carrancuda, lágrimas ameçaram sair do seus olhos.

“Que orgulho, que brio, que honradez”

Lá estava ele, Artilheiro, seu filho, de mãos dadas com o melhor camisa 9 do campeonato.

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